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Os 7 filmes mais superestimados dos anos 2000 parte 1

Passado o inferno astral, espero, finalmente, conseguir escrever de forma mais constante. Para marcar essa “volta”, nada melhor do que polemizar (tava demorando) criando uma lista. Fugindo da quase obrigatória dezena, pensei em uma categoria composta sempre por sete filmes apresentados em capítulos. Tema de estreia: os filmes mais superestimados pela crítica no século 21.

7 – Assassinato em Gosford Park (2001)

Robert Altman é um cineasta superestimado! Não existe mais do que meia dúzia de grandes obras em sua filmografia de dezenas de títulos. Mas Altman, que morreu em 2006 aos 81 anos, teve um começo de carreira badalado nos anos 70 quando deixou o trabalho na TV e estourou nos cinemas com M.A.S.H e, pouco depois, fez Nashville. O mito (ou o monstro) estava criado. Depois de muitos trabalhos irregulares ele só voltou a chamar atenção com dois bons filmes nos anos 90, O Jogador e Short Cuts – Cenas da Vida.

Gosford Park é um filme de estrutura clássica, se passa na Inglaterra dos anos 30 e mostra as relações entre classes em uma mansão de campo na qual está sendo realizada uma recepção para muitos convidados. Um crime acontece e daí em diante a coisa vira uma historinha de Agatha Christie.

Há referências diretas ao clássico A Regra do Jogo, de Jean Renoir, o elenco é espetacular mas falta um pouco de ritmo e isso é um convite ao cochilo. O final fraco (que deixa aquela sensação de longa espera por nada) também não ajuda garante a presença do filme na lista.

6 – Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004)

Agora você torceu o nariz para a lista, não é? Ok, eu concordo que o filme do diretor francês Michel Gondry tem um dos roteiros mais originais da história do cinema (do sempre surpreendente Charlie Kaufman) mas,  convenhamos, para ser realmente bom o filme precisa mais do que uma trama criativa. O problema de Brilho Eterno é o que em língua inglesa se define como miscast, a escolha errada do elenco.

Não há química alguma entre o casal principal formado por Kate Winslet e Jim Carrey e a culpa, é claro, não é dela. O filme foi feito em uma época na qual Carrey ainda tentava provar ao mundo que era mais do que um comediante careteiro abraçando projetos que exigiam uma certa carga dramática. Bem, hoje sabemos que não deu certo (nas férias ele estará em cartaz contracenando com pingüins, ou seja, fazendo o que sabe fazer melhor) e a razão está no simples fato de que Carrey não sabe atuar sem fazer micagens, sem exagerar, ou seja, ele é um canastrão. Não há como vê-lo em cena sem lembrar de Ace Ventura ou mesmo o Máscara. Bons atores não sofrem com esse problema (Wagner Moura é o melhor  exemplo nacional atual).

Mas o problema não é só Jim Carrey. Elijah Wood é um hobbit, não pode querer fazer par com uma humana. Não há encaixe. Suas cenas com Kate Winslet são tristes. Enquanto isso Kirsten Dunst e Mark Ruffalo são desperdiçados e Tom Wilkinson (esse sim um dos maiores atores vivos) tenta dar alguma dignidade ao grupo. Resumindo, o filme se segura, mas poderia ser perfeito se tivesse um elenco melhor ajustado.

5 – Donnie Darko (2001)

Afinal qual é a desse filme? Não vi nada que justificasse a fama de cult que ele ganhou na última década. A história do menino desajustado – ou talvez esquizofrênico mesmo – parece querer filosofar sobre o tempo e os sentidos de realidade, vida e morte mas só consegue fazer uma grande bagunça que termina sem conclusões (como se isso fosse “cabeça”). Jake Gyllenhaal está muito bem no papel principal e a trilha sonora com clássicos dos anos 80 é ótima, mas é pouco se você não é um adolescente.

 
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Publicado por em 27/05/2011 em 7 Mais

 

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Rio

Carisma dos personagens e visual da cidade fazem o filme valer a pena

Minha maior curiosidade sobre Rio era saber como uma animação americana do primeiro time dirigida por um carioca mostraria a cidade. A opção adotada por Carlos Saldanha e o grupo de roteiristas que assina o filme foi talvez a mais segura: não fugir dos clichês sobre o Rio de Janeiro que o cinema já mostrou. Estão lá as paisagens deslumbrantes de cartão postal, o Carnaval, o povo alegre fanático por futebol, o samba, o excesso de cores, a praia e a favela. Em resumo, é o conceito do Rio com o qual o estrangeiro está acostumado e isso foi um pouco decepcionante para o meu olhar brasileiro. O líder da quadrilha que trafica os pássaros precisava mesmo ser um malandro da favela? Por que não um espertalhão de classe média morador da Zona Sul?

A presença de um carioca no comando pode ser percebida no nível de detalhes contidos na história e no visual do filme e, aí sim, os brasileiros podem sentir um prazer particular. É muito legal ver, entre outras coisas, o garçon do barzinho trazendo a picanha e o coração de frango no espeto, as cadeiras de plástico nos quiosques da praia idênticas às reais e a riqueza do desfile na Sapucaí, por exemplo.

A história é bem simples. Blu é a última ararinha-azul macho da espécie. Ele nasceu no Brasil mas foi levado por traficantes de aves para os Estados Unidos e lá foi criado por Linda com todo conforto mas sem aprender a voar. Um dia,Túlio, um especialista em aves brasileiro, aparece dizendo que Blu precisa voltar ao Brasil para encontrar Jade, a última fêmea de ararinha do mundo, e assim salvar a espécie da extinção. Um pouco contrariados, Linda e Blu vêm para o Rio onde, é claro, as coisas fogem do controle. Blu não se entende com Jade e os traficantes de aves ainda estão em ação.

Tudo é previsível mas isso não é um problema, é mais uma característica dos filmes de Saldanha (a trilogia A Era do Gelo é o melhor exemplo), nos quais a complexidade da trama é secundária e o foco vai para os personagens. É o carisma de Blu e dos amigos que ele encontra no Rio que ajuda a sustentar o filme. Até mesmo os vilões (entre eles uma gangue de micos) são muito divertidos e interessantes. A outra grande qualidade de Rio é a beleza com a qual a cidade é exposta. É incomum que paisagens mostradas em uma animação provoquem tanta admiração.  

Completa a receita que transforma o filme em uma grande animação a agilidade da narrativa, na qual não há muito tempo para reflexão ou para grandes lições de moral. Tudo é colocado ao mesmo tempo de forma bem leve e engraçada.

O filme estreou bem nos Estados Unidos e no Brasil, ficando entre as maiores bilheterias do ano até o momento. Até que as sequências de Kung Fu Panda e Carros cheguem aos cinemas para tentar roubar o posto, Rio é a melhor animação de 2011.

 

Rio (Rio, 2011), com as vozes de Jesse Eisenberg, Anne Hathaway, Rodrigo Santoro, Leslie Mann, Jamie Foxx e Will I Am. Direção: Carlos Saldanha. 96 minutos.

 
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Publicado por em 20/04/2011 em Nos cinemas

 

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Para curtir O Discurso do Rei

O grande vencedor do Oscar não é um marco na história do cinema, mas não é um filme para ser desprezado

O Discurso do Rei não é agitado, não traz inovações tecnológicas nem possui uma história próxima de nós brasileiros. Mas isso não faz do trabalho do diretor Tom Hooper uma obra chata ou pouco merecedora do Oscar como se tem comentado. É preciso considerar dois pontos antes de tudo:

– O filme é narrado da maneira mais tradicional possível, com um roteiro linear e pouquíssima ousadia nos movimentos de câmera e na edição. Isso não é um defeito, foi o estilo escolhido pelo diretor, que tem em seu currículo as séries John Adams e Elizabeth I.

– Entrar no cinema sem saber localizar o momento histórico mostrado no filme pode atrapalhar bastante a avaliação final sobre ele.

O Discurso do Rei se passa às vésperas da Segunda Guerra Mundial, período no qual o Império Britânico ainda era o mais poderoso e influente do planeta e a família real inglesa era bem mais respeitada como instituição (e venerada como o supra-sumo do requinte) do que é hoje. Em 1936, a morte do rei George V levou ao trono seu filho mais velho Edward (no filme chamado de David, seu último nome) que não tinha a menor vocação para o posto e, para piorar, vivia um romance com Wallis Simpson, uma americana em processo de divórcio com a qual ele pretendia se casar. A situação gerou uma crise no governo inglês e a ameaça de renúncia do primeiro ministro. Sem apoio da família, Edward abdicou do trono para ficar com Wallis, o que fez de seu irmão Albert o novo rei com o nome de George VI.

O episódio – sempre tratado de forma sensacionalista como um caso no qual o amor venceu a tradição da monarquia – marcou o período e deixou em segundo plano a figura do discreto George VI. Segundo na linha de sucessão, Albert era, ou pelo menos se via como, o patinho feio da família. Sem o charme do irmão e ainda por cima gago, ele não alimentava a ideia de um dia se tornar rei.

A espinha dorsal de O Discurso do Rei é história de como Albert enfrentou sua dificuldade de se expressar e, ao mesmo tempo, ganhou forças para se tornar o rei que a Inglaterra esperava ter durante a guerra: seguro e confiante, pelo menos pelo rádio, o veículo que os reis precisaram domar naquela época. É emblemática a cena na qual o rei e sua família assistem a um pedaço de um discurso de Hitler, um líder que, com certeza, nunca teve problemas para convencer o público com suas palavras.

O inédito resgate da história de superação do monarca no roteiro do veterano David Seidler é o grande mérito do filme. Neste aspecto, a narrativa tradicional talvez tenha sido até necessária para não desviar a atenção do espectador. Outra razão para ver o O Discurso do Rei é a qualidade do elenco, no qual se destaca o trio central formado por Colin Firth (Albert), Geoffrey Rush (Lionel Logue, o fonoaudiólogo de métodos pouco ortodoxos que ajuda Albert) e Helena Bonham Carter (Elizabeth, a esposa do rei, que nós mais tarde viríamos a chamar de rainha-mãe). Sim, é preciso um pouco de paciência, principalmente na primeira meia hora, mas a viagem pode valer a pena.

And the winner was

Muita gente criticou a vitória de O Discurso do Rei no Oscar, como se a cada ano a Academia não cometesse erros. Ou pior, como se o Oscar tivesse algum tipo de compromisso com a qualidade ou com a busca pela perfeição cinematográfica. O discurso oficial até pode ser esse mas a prática é outra desde a criação do prêmio, em 1928. Tecnicamente, todos os indicados apresentam trabalhos acima da média. Todos merecem um prêmio, mas como só pode haver um vencedor, a polêmica sempre vai fazer parte do espetáculo.

O que talvez seja possível afirmar, considerando também a vitória de Guerra ao Terror no ano passado, é que as grandes e caras produções estejam com pouca moral na Academia que, na prática, nada mais é do que a fachada da indústria. A vitória de Avatar, por exemplo, poderia ter direcionado muito mais dinheiro para produções em 3D e com efeitos especiais digitais este ano.

O prêmio para dois filmes pequenos, em princípio despretensiosos, pode ser só a lembrança de que para se fazer cinema de qualidade é preciso apenas de uma boa história, um elenco competente e uma direção segura.

O Discurso do Rei (The King´s Speech, 2010), com Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonham Carter, Guy Pearce, Michael Gambon, Claire Bloom e Derek Jacobi. Direção: Tom Hopper. 118 minutos.

 
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Publicado por em 28/03/2011 em Nos cinemas

 

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